- Antes de tudo: babosa não é uma única planta
Quando falamos em babosa, normalmente estamos falando da Aloe vera. Mas Aloe é um gênero botânico que reúne muitas espécies.
E elas não são simplesmente versões diferentes da mesma planta. A composição química pode mudar bastante de uma espécie para outra.
Um estudo comparando diferentes espécies de Aloe, por exemplo, encontrou diferenças importantes no perfil de carotenoides, ácidos graxos e na atividade antioxidante.
Para se ter uma ideia, a Aloe arborescens e Aloe marlothii foram as que apresentaram maior potencial antioxidante nesse estudo.
Isso é muito importante porque, quando falamos de plantas medicinais, a espécie importa. E também importa qual parte da planta está sendo utilizada. Porque dentro de uma folha de Aloe existem materiais completamente diferentes.
Temos o gel transparente, que fica no interior da folha. Temos o látex, uma substância amarelada que fica próxima à casca. E temos a folha inteira.
Essas partes possuem composições químicas diferentes e não devem ser tratadas como se fossem a mesma coisa.
Então vamos conhecer cinco espécies. E vamos começar justamente pela mais famosa.
- Aloe vera — a babosa que o mundo conhece

A Aloe vera, também conhecida como Aloe barbadensis Miller, é provavelmente a espécie de Aloe mais estudada e utilizada no mundo.
E não é difícil entender por quê. A folha dessa planta é praticamente um pequeno laboratório químico.
Revisões recentes descrevem mais de 200 compostos bioativos identificados na espécie, incluindo polissacarídeos, flavonoides, ácidos fenólicos, saponinas, terpenoides e derivados de antraquinonas.
Entre esses compostos, um dos mais importantes é o acemannan, um polissacarídeo encontrado no gel. E é justamente aqui que a história começa a ficar muito interessante.
Esses polissacarídeos vêm sendo estudados por suas atividades imunomoduladora, anti-inflamatória, antioxidante e cicatrizante.
Uma revisão publicada em 2025 reuniu os estudos mais recentes sobre os polissacarídeos da Aloe vera e descreveu justamente esse conjunto de atividades biológicas.
E não estamos falando apenas de estudos em laboratório.
Em 2025, uma revisão sistemática e meta-análise avaliou sete ensaios clínicos randomizados envolvendo 355 pessoas com mucosite oral relacionada ao tratamento do câncer. O uso de Aloe vera esteve associado a melhora significativa nos casos mais graves de mucosite, especialmente quando comparado ao placebo.
Outro estudo de 2025, também uma meta-análise, avaliou o uso local de Aloe vera como complemento no tratamento periodontal e encontrou melhora em alguns parâmetros clínicos. Os próprios autores, porém, destacam que a quantidade e a qualidade dos estudos ainda limitam conclusões clínicas definitivas.
Ou seja: a babosa não é apenas uma planta que a medicina tradicional utiliza há séculos. Ela continua sendo objeto de investigação científica.
E enquanto Aloe vera ganhou fama no mundo inteiro, existe outra espécie que merece muita atenção.
- Aloe arborescens — uma espécie com uma química diferente

Se você conhece aquela babosa de folhas mais estreitas, geralmente mais compridas e que cresce formando uma espécie de árvore, talvez esteja olhando para uma Aloe arborescens.
E essa espécie tem uma história medicinal própria.
Uma revisão sistemática sobre Aloe arborescens reuniu estudos sobre atividades anti-inflamatória, antimicrobiana, antifúngica, antiulcerosa, imunomoduladora e antitumoral.
Mas aqui precisamos fazer uma distinção importante: Quando um estudo mostra que um extrato de uma planta consegue inibir células tumorais em laboratório, isso é uma descoberta científica importante.
Mas isso não significa que a planta seja um tratamento comprovado contra o câncer em seres humanos.
E essa diferença não diminui o poder da planta. Pelo contrário. Ela mostra por que a ciência continua estudando essas espécies.
Em 2023, um estudo analisou a composição química do extrato de folhas de Aloe arborescens e avaliou suas atividades antioxidante e antibacteriana, encontrando atividade em modelos experimentais.
A espécie também apresenta compostos fenólicos característicos, como aloína, aloenina e derivados de aloeresina. Então temos aqui uma planta que não é simplesmente uma “babosa diferente”.
É uma espécie com perfil químico próprio. E isso nos leva a outra espécie que tem uma história ainda mais antiga e um detalhe muito importante: o látex.
- Aloe ferox — a babosa-do-cabo

Agora vamos conhecer a Aloe ferox, conhecida como babosa-do-cabo.
Assim como outras espécies do gênero Aloe, ela possui gel e látex, e as duas partes apresentam composições químicas diferentes.
O látex é aquela substância amarelada e amarga localizada entre a casca e o gel interno da folha. Ele contém derivados de hidroxiantraquinonas, entre eles a aloína, compostos que também podem ser encontrados no látex de outras espécies de Aloe.
O que torna a Aloe ferox especialmente interessante é a sua longa história de utilização medicinal do látex como laxante. A ação laxativa está relacionada principalmente às antraquinonas presentes nessa fração da planta.
E aqui precisamos fazer uma distinção muito importante: látex não é gel.
O gel fica no interior da folha e possui uma composição bastante diferente, sendo rico principalmente em polissacarídeos. Já o látex concentra as hidroxiantraquinonas.
Essa diferença é fundamental porque os efeitos e a segurança dessas duas partes também são diferentes. O látex, quando ingerido em determinadas quantidades, pode provocar cólicas, dor abdominal e diarreia, e o uso de preparações com alto teor de antraquinonas merece atenção justamente por questões de segurança.
Por isso, quando falamos em utilizar uma Aloe medicinal, não basta dizer simplesmente “use babosa”.
Precisamos saber qual espécie, qual parte da folha e qual preparação estamos falando.
E a Aloe ferox também apresenta interesse medicinal além do seu látex. Estudos encontraram no gel e em outros extratos da espécie diferentes compostos bioativos, incluindo fenólicos, flavonoides e esteróis, além de atividade antioxidante em modelos experimentais.
Ou seja: a Aloe ferox não é especial porque é a única que possui aloína.
Ela é especial porque tem uma história medicinal própria, uma composição química particular e uma longa tradição de utilização do seu látex.
- Aloe perryi — a babosa do Socotra

Agora vamos sair completamente da imagem da babosa que estamos acostumados a ver.
Aloe perryi é uma espécie associada principalmente à ilha de Socotra e regiões da Península Arábica.
Ela também possui tradição medicinal. E os estudos mostram que essa espécie possui uma diversidade interessante de metabólitos.
Em uma pesquisa experimental, extratos de Aloe perryi apresentaram atividade anti-inflamatória em modelo animal e favoreceram contração da ferida e reepitelização em um modelo experimental de cicatrização.
Outro estudo investigou o potencial de extratos das flores da espécie sobre diferentes linhagens de células tumorais humanas, encontrando atividade antiproliferativa em alguns modelos.
Mais uma vez, isso não significa que Aloe perryi seja um tratamento contra o câncer.
Significa que existem moléculas nessa planta capazes de produzir efeitos biológicos mensuráveis em modelos experimentais.
E é justamente assim que muitas descobertas da farmacologia começam.
Uma planta é utilizada tradicionalmente. Pesquisadores começam a investigar. Identificam os compostos. Descobrem mecanismos.
E, eventualmente, algumas dessas moléculas podem se transformar em medicamentos ou inspirar novos tratamentos.
- Aloe marlothii — uma espécie que merece mais atenção

E para fechar nossa lista, vamos falar de uma espécie que talvez seja muito menos conhecida por você: Aloe marlothii. Ela é uma espécie sul-africana e também possui uso tradicional.
Mas o que me chamou atenção nela foi justamente o que os estudos comparativos encontraram.
Quando diferentes espécies de Aloe foram analisadas quanto à composição química e atividade antioxidante, Aloe marlothii apareceu entre aquelas com maior potencial antioxidante no estudo. E não estamos falando apenas de estudos antigos.
Em 2024, pesquisadores avaliaram especificamente o potencial hipoglicemiante dessa especie, que é muito utilizada na Africa do Sul para o manejo de diversas condições, incluindo diabetes.
No experimento, o extrato estimulou a captação de glicose por células musculares e alterou componentes relacionados à sinalização da insulina. É um resultado super interessante.
Mas novamente: é uma evidência experimental, não uma indicação para tratar diabetes com a planta. E essa diferença entre “potencial medicinal” e “tratamento comprovado” é fundamental.
- Afinal, o que essas cinco espécies nos ensinam?
Quando olhamos para essas cinco plantas juntas, fica muito claro que não existe uma única “babosa medicinal”.
Existe um gênero inteiro de plantas com uma enorme diversidade química.
E talvez essa seja a parte mais fascinante. Nós ainda não conhecemos todo o potencial medicinal das espécies de Aloe.
A ciência continua descobrindo novos compostos, novos mecanismos e novas possibilidades.
Então, da próxima vez que você olhar para uma babosa, lembre-se: ela pode não ser apenas uma babosa. Pode ser uma Aloe vera. Uma Aloe arborescens. Uma Aloe ferox. Uma Aloe perryi. Ou uma Aloe marlothii.
E cada uma delas carrega uma composição química própria e uma história medicinal diferente. É por isso que conhecer as plantas é tão fascinante.
Porque quanto mais a ciência investiga, mais a gente percebe que a natureza é muito mais complexa — e muito mais poderosa — do que parece.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS PRINCIPAIS
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Catalano, A. et al. (2024). Aloe vera—An Extensive Review Focused on Recent Studies. Foods, 13(13), 2155.
Cássia-Santos, D. et al. (2025). Effectiveness of Aloe vera in the treatment of oral mucositis: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. International Journal of Oral and Maxillofacial Surgery.
Xie, C. et al. (2025). Clinical effect of local Aloe vera use as an adjunct to periodontal therapy: a systematic review and meta-analysis. Journal of Evidence-Based Dental Practice.
Ashifa, N. et al. (2025). Clinical effectiveness of aloe vera gel as an adjunct to mechanical debridement in patients with periodontitis: a systematic review and meta-analysis. Journal of Advanced Periodontology and Implant Dentistry.
Cock, I. E. (2015). The Genus Aloe: Phytochemistry and Therapeutic Uses Including Treatments for Gastrointestinal Conditions and Chronic Inflammation. Progress in Drug Research.
Lucini, L. et al. (2020). Comparative analysis of some bioactive compounds in leaves of different Aloe species.
Choi, J. et al. (2023). Chemical Profile, Antioxidant and Antibacterial Activities, Mechanisms of Action of the Leaf Extract of Aloe arborescens Mill. Plants.
De Yogam Kamga-Simo, F. et al. (2024). Evaluation of the Potential Hypoglycaemic Properties of Mimusops zeyheri Sond. and Aloe marlothii A.Berger. Plants.
Suliman, R. S. et al. (2021). Metabolites Profiling, In Vitro, In Vivo, Computational Pharmacokinetics and Biological Predictions of Aloe perryi Resins Methanolic Extract. Plants.
